O Papa, o Profeta e a Crise da Verdade Por R. Albert Mohler Jr. Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

O Papa Bento XVI visitou sua terra natal, Alemanha, na última semana e proferiu um discurso na Faculdade de Ciências da Universidade de Regensburg. Seu discurso tratou principalmente da relação entre fé e razão, mas esse tema foi eclipsado pelos comentários do Papa sobre o Islamismo. Eles diziam respeito a uma declaração do “erudito imperador bizantino Manoel II, Paleólogo”, do ano de 1391: No sétimo diálogo… o imperador aborda o tema da guerra santa. Ele devia saber que na Surata 2, 256 lê-se: “Não há nenhuma compulsão na religião”. De acordo com os especialistas, essa é uma das Suratas do período antigo, quando Maomé não detinha poder e vivia sob ameaças.
Mas naturalmente o imperador também conhecia as instruções, desenvolvidas mais tarde, registradas no Alcorão, com respeito à guerra santa. Sem entrar nos detalhes, tais como a diferença no tratamento dispensado aos que tinham o “Livro” e aos “infiéis”, ele aborda seu interlocutor com uma brutalidade assustadora, espantosa, quanto à questão central da relação entre religião e violência em geral, dizendo: “Mostre-me o que Maomé trouxe de novo, e lá você encontrará apenas coisas más e desumanas, como sua ordem de difundir a fé que ele pregava pelo uso da espada”. Essa citação, incluída num discurso acadêmico, deu início a uma onda mundial de protestos, especialmente no mundo islâmico. As elites seculares ocidentais também se manifestaram negativamente. No começo da semana, o Vaticano tornou públicas suas preocupações acerca da segurança do Papa.
Em resposta aos protestos, o Vaticano ofereceu várias desculpas divergentes – desde alegações de que a declaração do Papa foi mal entendida até a afirmação de que a citação não indica o conceito particular do Papa sobre o Islamismo. Pode levar certo tempo para que a confusão se esclareça. Há várias questões interessantes aqui.
Em primeiro lugar, esse incidente é apenas outro lembrete do perigo do papado. Esta não é uma afirmação popular a ser feita – mesmo entre alguns evangélicos confusos – mas é necessária. O Papa Bento XVI
é um homem de genialidade incrível. Suas denúncias contra o secularismo e a teologia liberal estão entre os documentos teológicos mais notáveis das décadas recentes. Contudo, o ofício que ele desempenha é uma instituição antibíblica baseada num ministério monárquico incompatível com o conceito de igreja do Novo Testamento. Além do mais, ele também alega ser o líder de um Estado – situação que aumenta a dificuldade.
Os problemas do papado são muito maiores que os resumidos aqui, mas a questãoimportante é que os comentários do Papa – para o bem ou para o mal – recebem uma proeminência antibíblica e perigosa. Ademais, a Igreja Católica Romana é responsável por confundir a relação entre o cristianismo e o islamismo. Pior do que isso, o Catolicismo constrange o Evangelho de Jesus Cristo ao abordar o Islamismo. Em Nostra Aetate — também conhecida como a “Declaração sobre a Relação da Igreja com as Religiões Não-Cristãs”, proclamada pelo Papa Paulo VI em 28 de outubro de 1965 — a igreja declarou: A Igreja olha também com estima para os muçulmanos. Adoram eles o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e onipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração, como a Deus se submeteu Abraão, que a fé islâmica de bom grado evoca. Embora sem o reconhecerem como Deus, veneram Jesus como profeta, e honram Maria, sua mãe virginal, à qual por vezes invocam devotamente.
Esperam pelo dia do juízo, no qual Deus remunerará todos os homens, uma vez ressuscitados. Têm, por isso, em apreço a vida moral e prestam culto a Deus, sobretudo com a oração, a esmola e o jejum. E se é verdade que, no decurso dos séculos, surgiram entre cristãos e muçulmanos não poucas discórdias e ódios, este sagrado Concílio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreensão mútua e juntos defendam e promovam a justiça social, os bens morais e a paz e liberdade para todos os homens
.2 De modo similar, em Lumen Gentium, outro documento do Concílio Vaticano II, a Igreja definiu seu entendimento sobre o Islamismo com estas palavras: Mas o desígnio da salvação estende-se também àqueles que reconhecem o Criador, entre os quais vêm em primeiro lugar os muçulmanos, que professam seguir a fé de Abraão, e conosco adoram o Deus único e misericordioso, que há de julgar os homens no último dia.
3 Em outras palavras, a Igreja Católica ensina que os muçulmanos estão incluídos na economia da salvação pelo fato de adorarem o único Deus verdadeiro. Isso é simplesmente insustentável por vários motivos. O mais importante é o caráter trinitário irredutível da doutrina cristã de Deus. Não conhecemos outro Deus que não o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O Islamismo nega explicitamente que Jesus seja o Filho de Deus. Os muçulmanos não reconhecem nenhum Deus como Pai de Jesus Cristo. Os cristãos não conhecem nenhum Deus que não seja o Pai de Jesus Cristo. Não confessamos nem adoramos o mesmo Deus. Mas, e o que dizer sobre os comentários do Papa na Alemanha?
O uso de palavras específicas e a citação de uma autoridade antiga não deveriam obscurecer o fato de que os comentários do Papa foram bastante precisos – a ponto de causar uma grande revolta. O Islamismo e o Cristianismo estão encerrados num conflito espiritual e teológico. A lógica do Islamismo, baseada no objetivo do domínio universal do Alcorão, assegura que esse será um dos conflitos definidores da presente era. O Papa Bento XVI está correto em considerar o Islamismo uma ameaça à Europa secular – continente determinado a minar o fundamento que lhe deu origem.
As preocupações do Papa acerca do secularismo e dos abusos do Islamismo estão baseadas na realidade. Se essas tendências não forem avaliadas, a Europa se tornará o novo berço do Islamismo. Como adverte a autora Melanie Phillips, Londres está se transformando rapidamente em Londrinistão.4 Para os cristãos evangélicos, a controvérsia sobre os comentários do Papa pode servir de estímulo à reflexão responsável sobre essas questões urgentes. Devemos nos lembrar de que essa luta é espiritual. A única resposta cristã apropriada a esse conflito é testemunhar o Evangelho – e não começar uma guerra santa.
Devemos nos lembrar também de que nossa preocupação básica não é a sobrevivência da civilização ocidental, por mais importante que seja, mas o destino eterno de nossos semelhantes. Não há tempo para confusão ou covardia quanto a esse desafio. Devemos dizer a verdade sobre o Cristianismo e o Islamismo – e devemos compartilhar o Evangelho.
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